A ousadia de empreender

Fundado em agosto de 2016, o Centro de Empreendedorismo da Amazônia é uma ONG que atua na articulação do ecossistema de negócios rurais sustentáveis. Raphael Medeiros, diretor-executivo, conta que o Centro surgiu a partir da constatação de que não existiam ações que promovessem educação empreendedora, tampouco que apoiassem o empreendedorismo sustentável com base na floresta e na biodiversidade da Amazônia.

“Um dos nossos grandes parceiros é o Instituto Humanize, que apoiou a própria criação do Centro, quando ainda éramos um conceito, e prosseguiu dando suporte à execução dos nossos programas. Além disso, ajudou a abrir portas e a nos conectar com outras instituições interessadas em receber os projetos ou a capitar recursos”, diz Raphael, recordando os primeiros tempos.

Centro de Empreendedorismo da Amazônia
Raphael Medeiros, do Centro de Empreendedorismo da Amazônia: iniciativa apoia ideias de negócios com foco na floresta / divulgação


Ele sublinha que a Amazônia é um imenso território de quase seis milhões de quilômetros quadrados. São 22 milhões de pessoas nas fronteiras brasileiras e aproximadamente 40 milhões na chamada Amazônia internacional. “Essas pessoas precisam se desenvolver. E como é que a gente faz para que isso aconteça sem agredir a floresta?”, pergunta. A única e óbvia resposta é: por meio de ações sustentáveis com impacto social e ambiental.

É imprescindível educar as novas gerações para o uso de recursos naturais de forma consciente, de modo que se possa usufruir da floresta, zelando para que suas riquezas continuem sendo riquezas para sempre.

 

“Educação empreendedora é algo que instituições como o SEBRAE já desenvolvem com maestria. O que nós buscamos, e estamos sempre enfatizando isso, é uma educação empreendedora sustentável, voltada para essa região”, reforça Raphael.

Encarar a floresta como oportunidade de negócio responsável é uma marca do Centro de Empreendedorismo. “Os jovens, em geral, enxergam na floresta um grande verde, às vezes até como um obstáculo para o desenvolvimento. Muitos não entendem o que existe ali dentro”, lamenta. “No colégio, aprendemos sobre as margens esquerda e direita do Rio Amazonas, o relevo da região, o Ciclo da Borracha. Mas será que isso é o suficiente para instigar a moçada a preservar a floresta e usá-la de forma consciente?”

O Centro de Empreendedorismo dedica seus esforços a três programas. O Amazônia 360 é um programa de educação empreendedora desenvolvido em duas fases. Na primeira, busca-se fazer os jovens enxergarem o empreendedorismo como uma oportunidade de crescimento. A ideação é a segunda etapa, quando eles aprendem a ter ideias de negócios para a floresta. O primeiro curso aconteceu em 2018, em Barcarena (PA), com 300 participantes.

Amazônia Up: evento de empreendedorismo, sustentabilidade e inovação/ divulgação

O passo subsequente ao Amazônia 360 é o Amazônia Up, programa que, através de um edital, permite que os jovens desenvolvam as suas ideias de negócios sustentáveis, com o apoio de oficinas imersivas, presenciais e a distância, bem como o auxílio de mentores. “Estes mentores ajudam a ‘tirar’ as ideias da cabeça dos jovens para transformá-las em modelos de negócios validados e prontos para serem implementados”, detalha Raphael Medeiros. O programa já acelerou 23 modelos de negócios, beneficiando cerca de 70 pessoas.

O terceiro programa desenvolvido pelo Centro é o AMESA – Agricultura Familiar e Mercados Sustentáveis, que visa aumentar expressivamente a participação da agricultura familiar na oferta de alimentos para mercados institucionais e privados. O programa já beneficiou 500 famílias de agricultores. Em 2018, o objetivo foi consolidar a fase piloto do programa, que teve início em 2017. Em 2019 o programa continua a se desenvolver e a se aprimorar.

 

“O Instituto Humanize está no DNA do Centro de Empreendedorismo da Amazônia, porque foi a primeira instituição que acreditou na gente. Nos ajudou a crescer, a implementar novos programas e territórios e a nos conectar com esse mundo do empreendedorismo. Sem essa ajuda não estaríamos aqui hoje, porque na Amazônia ficamos muito isolados das ações que acontecem nos grandes centros.” (Raphael Medeiros, diretor-executivo do Centro).

 

O retrato do jovem empreendedor da região pode ser resumido no exemplo de Lorena Coelho da Silva, estudante do curso de Publicidade e Propaganda do Centro Universitário do Pará (Cesupa) e participante do Amazônia Up na segunda edição de 2018. Nascida em São Luís do Maranhão, ela tem 20 anos e vive em Belém desde os seis. Conta que começou a se interessar por vegetarianismo aos 16 anos e por veganismo, aos 17. Enfrentou a clássica oposição da família, mas não esmoreceu: “As pessoas são muito ignorantes, não no sentido ruim da palavra, mas por desconhecimento mesmo. A mídia vem repercutindo esse assunto, mas muitos ainda não têm acesso à informação”.

Confeiteira por vocação, Lorena já se interessava por confeitaria mesmo quando ainda consumia produtos de origem animal. Entrou no Amazônia Up, portanto, com a ideia de investir no seu talento de doceira. “Mas, a partir do programa, eu fui especificando, aperfeiçoando e modificando a ideia. Criei um nicho de mercado e um nicho de produto, até chegar a Amuara”.

Lorena Silva, participante do Amazônia Up com a empresa vegana Amuara / divulgação

O Amuara surgiu com o intuito de ser uma empresa vegana e amazônica, que trabalhará com a produção de produtos derivados de leite de castanhas, sendo estes: leite condensado, doce de leite e brigadeiro de castanha do Pará com chocolate. Lorena quer se dedicar exclusivamente aos confeitos veganos para mostrar aos clientes que é possível “cultivar doces prazeres e adotar uma alimentação sem explorar os animais e agredir o mundo”.

A matéria-prima dos produtos será de origem 100% vegetal, com insumos vindos de produtores locais. “Podemos dizer que sempre valorizamos o que é nosso, tanto a floresta quanto as pessoas, buscando, assim, um futuro mais justo para a Terra”, diz a jovem empreendedora.

Entusiasmada, ela explica que o Amuara ainda é uma startup, mas que pretende lançar o negócio em 2019, com a venda de produtos pela internet. “O Brasil não incentiva o empreendedorismo. Desde cedo, nós somos instruídos a ter um emprego de carteira assinada ou a trabalhar para alguém. Nunca pensamos que podemos ser a pessoa que vai abrir o negócio”, lamenta Lorena, que tem muitos planos para o futuro. Além de alcançar o mercado brasileiro, pretende expandir seus negócios, exportando para a Austrália, os Estados Unidos e a Holanda.

Produtos da startup Amuara: doce de leite, leite condensado (ambos de castanha de caju) e brigadeiro de castanha do Pará com chocolate da região amazõnica / divulgação

 

Programa Amazônia UP é realizado em três etapas

Divulgação e Seleção: ampla divulgação do edital nas redes sociais e junto às instituições parceiras do programa. A seleção é feita com base no alinhamento de propostas e premissas, tais como inovação, sustentabilidade, benefícios socioambientais e viabilidade econômica.

Oficinas de pré-aceleração: nesta fase, as ideias são transformadas em Modelos de negócios com um “Minimum Viable Products” (MVP) ou Protótipos. Os empreendedores selecionados participam de oficinas e capacitações com mentores experientes em negócios sustentáveis na Amazônia. As oficinas contam com profissionais de mais de 18 instituições parceiras.

DemoDay: os modelos de negócio são apresentados para um público composto por empresários, investidores, universidades, instituições de fomento ao empreendedorismo e especialistas da área pública, que representam o ecossistema de negócios sustentáveis na Amazônia.

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