Lideranças femininas inspiram novos caminhos na gestão pública

Flávia Neves Maia é servidora pública de Teresina há mais de dez anos. Arquiteta urbanista, especialista em sustentabilidade (PUC Rio), mestre e doutora em Urbanismo pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), tem experiência prática na implementação da Agenda 2030 de Desenvolvimento Sustentável na Prefeitura de Teresina e no Programa de Resiliência Urbana de Teresina. Nos últimos anos, Flávia tem se aprofundado cada vez mais na Gestão Urbana. As perguntas que a movem são: “Como criaremos juntos as cidades sustentáveis do futuro?” e “Como ampliaremos a voz de meninas e mulheres para solucionar a questão complexa da mudança climática?”.

Em 2018, Flávia recebeu uma bolsa para integrar a primeira turma do Columbia Women’s Leadership Network in Brazil – um programa oferecido pelo Columbia Global Centers | Rio de Janeiro em parceria com Humanize, República.org e Fundação Lemann. A iniciativa seleciona anualmente grupos de até 20 profissionais de nível médio e sênior com o objetivo de desenvolver uma crescente rede de mulheres que contribuirão para a transformação do serviço público no Brasil.

Aproveitando os talentos e a excelência acadêmica da Universidade de Columbia, cada turma é formada por mulheres trabalhando em áreas da gestão pública em diversas partes do Brasil. Essas profissionais participam de oficinas no Brasil e no campus da Universidade de Columbia, na cidade de Nova York. O programa consiste em 10 módulos que incluem treinamentos estratégicos, atividades de networking, mesas redondas, seminários e sessões de mentoria. A iniciativa de lideranças femininas já está em sua terceira edição e temporariamente com aulas virtuais, devido à pandemia do novo coronavírus.

Em 2020, Flávia ganhou bolsa de estudos na Obama Foundation, fundação criada em 2018 pelo ex-presidente dos Estados Unidos da América Barack Obama e pela ex-primeira-dama e advogada Michelle Obama. O nome da brasileira, entre 11 selecionados do mundo todo, marca uma presença até então inédita de uma representante da região Nordeste no programa Obama Foundation Scholars – curso oferecido pela Universidade de Columbia.

Flávia Neves Maia, servidora pública de Teresina (PI) / Foto: Arquivo pessoal.

Ao refletir sobre a sua trajetória, Flávia destaca que ser servidor público no Brasil é um desafio por diversas razões, e que ser uma mulher no serviço público configura um desafio a mais. “Vivemos em um país com muita violência de gênero na esfera pública. Ainda há muito estigma relacionado às mulheres em posição de liderança, porém estamos ganhando espaço no serviço público e promovendo transformações significativas – são inúmeras mulheres promovendo transformações em todas as partes do Brasil,  no urbanismo, na saúde, na educação, enfim, em todas as áreas-chave para o desenvolvimento nacional. Para nós, existem desafios maiores, mas isso também torna as conquistas ainda mais gratificantes”, afirma Flávia, acrescentando que as mulheres que vêm ganhando espaço inspiram outras a se dedicarem a uma carreira nas diversas esferas do serviço público. “É uma linda profissão paras as mulheres, principalmente aquelas com senso de comunidade e verdadeiro espírito público”, complementa.

A servidora pública destaca o programa Columbia Women’s Leadership como uma grande oportunidade alinhada ao fortalecimento de mulheres nos diversos caminhos do setor público. “No Brasil, ser uma líder no campo de gestão pública é, muitas vezes, uma tarefa muito solitária. Geralmente as mulheres chegam em posições de liderança e ficam muito isoladas, sempre rodeadas por homens”, comenta. Ela pontua ainda que o cenário formado – em sua maioria por homens – desencoraja as mulheres e muitas vezes faz com que elas pensem que estão sozinhas. Nesse sentido, ela opina que iniciativas que quebram essa percepção de isolamento, como a oferecida pelo Columbia Global Centers | Rio de Janeiro, são muito ricas para estimular e fortalecer as carreiras destas mulheres. “A importância e a inovação da rede Columbia de mulheres líderes no Brasil foi nos conectar, unir essas mulheres que estavam isoladas, e aumentar a nossa potência e o impacto dos nossos trabalhos. O programa nos manteve otimistas, persistentes e com coragem para seguir em frente”, declara Flávia. Segundo ela, a rede formada ao longo de 2018 – período em que o curso foi realizado – permanece ativa nas redes sociais e funciona como ajuda mútua para todas as mulheres que participaram do programa. “Recentemente, por exemplo, uma de nossas mentoras, Leany Lemos – que, assim como eu, atua em planejamento – me conectou com a equipe dela no Rio Grande do Sul. A equipe havia desenvolvido uma fórmula matemática para guiar um processo seguro e justo de reabertura econômica em meio à pandemia. Adaptamos a fórmula à nossa realidade socioeconômica em parceria com a Universidade Federal do Piauí e utilizamos em Teresina. Foi emocionante ver os servidores conectados de norte a sul do país, em um esforço coletivo e solidário de minimizar os riscos às vidas dos brasileiros e brasileiras”, relembra.

Primeira turma do programa Columbia Women’s Leadership Network in Brazil reunida no campus da Universidade de Columbia, na cidade de Nova York, em 2018 / Foto: Columbia Global Centers | Rio de Janeiro.

Falando sobre o período que passou entre aulas e oficinas no Brasil e no campus da Universidade de Columbia, em Nova York, Flávia lembra com carinho de como o Columbia Women’s Leadership impactou a sua vida e de como a iniciativa reflete em suas ações e conquistas hoje. “O programa foi um divisor de águas na minha vida; existe uma Flavia antes e uma outra depois dessa experiência. A jornada me abriu os olhos para o que era possível conquistar como servidora pública e me trouxe referências de estratégias de negociação, oratória, storytelling, inclusive indicando o viés de gênero em todas essas ferramentas de liderança. Eu me senti extremamente inspirada por todos os professores e colegas. Foi um período muito significativo e isso vem impactando a minha vida desde 2018”, comemora, acrescentando que os reflexos dessa vivência são, dentre outros, a aprovação para o Programa de Scholars da Fundação Obama. “Eu comecei a acreditar que era possível me inserir em redes e iniciativas cada vez maiores. Foi nos ensinado, durante o programa da Columbia, que a mulher líder no serviço público não sobe sozinha, ela traz outras mulheres junto. No caso do Brasil, não existirá transformação real se a nossa representação em posição de poder não refletir a composição da nossa sociedade. Como nós temos uma sociedade que tem mais de 50% da população formada por mulheres, nós também temos que ter essa equidade nos espaços de poder”, afirma.

Sobre a recente aprovação no The Obama Foundation Scholars Program, Flávia explica que o impacto positivo que ela já causava no desenvolvimento sustentável de sua comunidade foi essencial para conquistar uma das 11 vagas. “No ano passado eu tive acesso à chamada para esse programa. Para se inscrever é necessário mostrar como a gente impacta positivamente a nossa comunidade e isso coincide com o objetivo do programa – que é inspirar, conectar e empoderar líderes que já têm um impacto comprovado em suas próprias comunidades e que desejam ampliar o resultado desse trabalho”, conta, dividindo ainda que um projeto que teve a sua sementinha plantada no programa Columbia Women’s Leadership contribuiu com a seleção da Fundação Obama. “Eu apresentei o nosso esforço coletivo em Teresina – eu falo ‘nosso’ porque é o resultado de um esforço de toda uma gestão, não é um esforço só meu. O projeto consiste em colocar Teresina na linha de frente da mitigação e da resiliência em relação à mudança climática. Na seleção eu mostrei, especificamente, o programa ‘Mulheres pelo Clima’, cuja ideia nasceu – teve a sua sementinha plantada – lá em 2018 com as mulheres da Columbia. ‘Mulheres pelo Clima’ é um programa que aumenta a consciência da população sobre mudanças climáticas e sobre a possibilidade que as mulheres têm de promover grandes transformações como agentes climáticas. É um projeto que existe em Teresina hoje e que pretendemos ampliar”, destaca.

Ainda repercutindo a aprovação no programa Scholars da Fundação Obama, Flávia conta  que tem a expectativa de aprender e transmitir conhecimento. “A minha expectativa para o programa é que eu aprenda com meus colegas que vivem contextos tão ou mais desafiadores do que o meu, e que possamos aproveitar esses aprendizados nas redes das quais faço parte no Brasil, como a rede de mulheres da Columbia. Tenho colegas de Argentina, Cingapura, Jordânia, Sudão do Sul, Índia, Bangladesh, Hong Kong, Quênia, Mongólia, e Hungria – são pessoas de diferentes realidades e que têm muito a ensinar”, conta, completando que também vai contribuir com tudo o que aprendeu ao longo de sua trajetória. “Darei o melhor de mim para ensinar o que aprendi até aqui. Espero que seja um espaço em que eu possa dar visibilidade e voz às mulheres nordestinas – especialmente as mulheres dos grupos mais vulneráveis. Que a gente possa, com essa e outras ações, ajudar a fortalecer cada vez mais os caminhos para desenvolvimento social, econômico e sustentável tanto da minha região, quanto do Brasil”, conclui.

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