Mais vida no Paraíba do Sul

Habituada às águas das bacias hidrográficas dos rios Paraíba do Sul, Itabapoaba, Imbé e São João, a piabanha (Brycon insignis) é um peixe prateado que vive em pequenos cardumes, muito sensível às variações do ambiente. Hoje, ele é símbolo de resistência e dá nome a uma importante iniciativa.

Trata-se do Projeto Piabanha, fundado em 1998, uma organização da sociedade civil, de interesse público, regida pela Associação de Pescadores e Amigos do Rio Paraíba do Sul.

Através de um Termo de Comodato localiza-se em uma belíssima ilha do rio Paraíba do Sul, de propriedade da Empresa de Pesquisa Agropecuária do Estado do Rio de Janeiro – Pesagro-Rio, em Itaocara, município da região noroeste fluminense.

Projeto Piabanha - Rio Paraíba do Sul
Rio Paraíba do Sul fica na região noroeste fluminense / divulgação

Com a missão de promover estratégias de gestão, manejo, pesquisas científicas e projetos de conscientização e mobilização da sociedade em prol da fauna aquática, o Projeto mantém um Banco Genético Vivo, ou Banco Ex-Situ, em parceria com a Companhia Energética de São Paulo (CESP), a Pesagro-Rio, a Universidade de Mogi das Cruzes e o Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Peixes Continentais (CEPTA/ICMBio).

As estratégias desenvolvidas vinculadas ao Banco Ex-Situ desempenham um papel-chave na comunicação de questões ambientais importantes ligadas à conservação, angariando apoio público e político. Além dessa estrutura, o Projeto Piabanha, em convênio com a Pesagro-Rio, mantém um Setor de Reprodução; um Laboratório de Incubação de Ovos e Larvas; e dezenas de tanques berçários para o crescimento das larvas e juvenis dessas espécies ameaçadas de extinção.

 

Um dos objetivos do projeto Piabanha é subsidiar futuras decisões para a conservação das Ilhas Fluviais do Rio Paraíba do Sul, protegendo as espécies ameaçadas de extinção.

 

A metodologia da equipe consiste, primeiramente, em levantar todas as informações pertinentes, respeitando os critérios científicos. De posse desses dados, os técnicos põem em prática o segundo objetivo, que é envolver a comunidade. “A ideia é que as pessoas se apoderem dessas informações e passem a lutar pela conservação das espécies”, explica o professor Guilherme Souza, diretor-técnico do Projeto, empreendedor social Ashoka e doutor em Ecologia e Recursos Naturais pela Universidade Estadual do Norte Fluminense.

O apoio do Humanize ao Piabanha – por meio de repasses financeiros para o prosseguimento dos trabalhos e pesquisas – data de 2011, quando o Instituto ainda não havia sido formalmente criado e atuava como Investimento Social Privado (ISP). De lá para cá, os esforços têm sido notáveis, e as ações desenvolvidas influenciam políticas públicas.

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Guilherme Souza, diretor-técnico do projeto, segurando um reprodutor de surubim-do-Paraíba / divulgação

Ao longo dos anos, o Projeto Piabanha conseguiu levantar uma imensa gama de informações, não só sobre as espécies como também sobre as regiões de atuações do Projeto Piabanha, os cursos – Baixo e Médio Paraíba do Sul e bacias hidrográficas adjacentes. Além disso, o Projeto aprimorou as técnicas de reprodução das espécies ameaçadas e dos peixes com valor comercial. “Quando se faz o somatório dessas atividades, é possível dar um passo muito grande”, diz Guilherme Souza.

Os conhecimentos desenvolvidos pelo Projeto Piabanha já contribuem com programas de conservação dos peixes do México e de Angola. Souza cita como destaque a contribuição ao Plano de Ação Nacional para a Conservação das Espécies Aquáticas Ameaçadas de Extinção da Bacia do Rio Paraíba do Sul, o PAN Paraíba do Sul, política pública do Ministério do Meio Ambiente, coordenada pelo ICMBIO, através do seu Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Peixes Continentais (CEPTA).

campus do projeto piabanha
Alunos e instituição de pesquisa no campus do projeto Piabanha / divulgação

A criação do Plano torna possível instruir os órgãos licenciadores sobre a instalação de grandes empreendimentos na bacia do Paraíba do Sul, em especial aqueles que são potencialmente poluidores. “Se uma hidrelétrica, por exemplo, quiser se instalar, terá que seguir determinadas normas e ter conhecimento do que está sendo feito no local”, exemplifica Guilherme.

O Projeto Piabanha também passou a fornecer subsídios para diversos pesquisadores, abrindo as portas para alunos de mestrado e doutorado que desejem utilizar os laboratórios para o desenvolvimento de suas pesquisas. Daí saíram alguns trabalhos sobre a reprodução da piabanha, como o primeiro período reprodutivo do piau-vermelho, a forma de alimentação da grumatã, técnicas de congelamento do sêmen da piabanha, descrições dos desenvolvimentos iniciais de ovos e larvas de peixes, e o levantamento das rotas migratórias mais efetivas no processo de reprodução natural das espécies do Paraíba do Sul.

Um dos integrantes da comunidade, que vem acompanhando o Projeto Piabanha desde o início, é o pescador Domingos José Afonso, o Dominguinhos, nascido no município fluminense de Itaocara e, desde os nove anos, morador de São Fidélis. “Para mim, o Rio Paraíba do Sul sempre foi uma fazenda sem porteira. Tirei de lá tudo o que tenho”, recorda Dominguinhos, que começou a pescar ainda menino, de vara e anzol, para ajudar a família.

Aos 74 anos, ele guarda daqueles tempos a lembrança de um “rio limpo, com muita água, muito peixe, uma maravilha”, onde ainda abundavam as espécies nativas: surubim-do-Paraíba, cascudo, piabanha, grumatã, traíra, bagre, piau-branco, piau-vermelho, mandi. Tendo que trabalhar desde criança, os estudos ficaram prejudicados, mas Dominguinhos é um mestre em seu ofício, que inclui a arte de congregar pessoas e conviver com a natureza.

Pescador Dominguinhos acompanha o projeto Piabanha desde o início / divulgação

“A vida me deu a oportunidade de aprender”, recorda. Em 1972, ele foi guia de um biólogo alemão que realizava uma pesquisa na região.  “O alemão dizia que o Paraíba do Sul estava condenado à morte. Comecei a ter maior conscientização ali. Logo fundamos uma associação de pescadores que atingiu nove colônias. Antes, não havia colônias de água doce nessa área”.

 

“Quando você começa a prestar atenção no meio ambiente, você percebe que ele está pedindo socorro, está pedindo que você olhe pra ele” (Domingos José Afonso, Dominguinhos, pescador).

 

Dominguinhos, que por 23 anos trabalhou como voluntário em projetos comunitários, considera o Projeto Piabanha da maior importância. “Eu ajudei o Projeto aqui em São Fidélis, com a coleta de material – para saber a temperatura da água, as espécies que estavam desovando, o nível de poluição. Já plantei mais de 30 mil árvores, soltei alevinos de lagosta, trabalhei com biólogos e químicos, faço o que posso pelo Paraíba do Sul”. Até hoje, Dominguinhos acompanha tudo o que está acontecendo na comunidade.

“Sofremos sete anos terríveis de seca. O rio perdeu água, mas mesmo prejudicado pelos esgotos que ainda persistem, temos as cachoeiras ajudando a decantar a poluição”, pontua. É nas futuras gerações que Dominguinhos deposita sua maior esperança de mudança. “Vai melhorar. A internet traz muitas informações e a juventude está mais esperta”, acredita.

Tocar o coração das novas gerações é, de fato, fundamental. Milhares de jovens já passaram pelas Manhãs-de-Campo da estação do Projeto Piabanha, onde recebem informações sobre as riquezas da região e a importância de preservá-las. Entender a dinâmica da área natural onde as espécies sobrevivem costuma mudar a percepção dos moradores. Muitos desses jovens entraram para a graduação em Ciências Biológicas e, com o prosseguimento dos estudos, se tornam mestres e doutores.

 

Espécies ameaçadas

Além da piabanha, estão ameaçados de extinção peixes como a pirapitinga-do-Sul, o surubim-do-Paraíba, o cascudo-leiteiro e o curimbatá-de-lagoa ou grumatã. O fomento à conservação genética dessas espécies faz parte dos objetivos do Projeto Piabanha, mas não só. Alguns números relativos às atividades desenvolvidas nos últimos anos são:

. Mais de 30 mil pessoas atendidas em ações de educação ambiental;
. Mais de 5 milhões de alevinos produzidos;
. Mais de 200 palestras realizadas;
. Mais de 30 Manhãs-de-Campo realizadas;
. Mais de 50 publicações científicas.