Um país mapeado

Em pouco mais de 30 anos, o Brasil perdeu, em termos de vegetação natural, uma área equivalente ao estado de Mato Grosso – ou seja, 89 milhões de hectares. No caso específico da Amazônia, a perda foi de 47 milhões de hectares em 34 anos, mais da metade do total registrado.

Tais dados foram apresentados pelo Projeto de Mapeamento Anual da Cobertura e Uso do Solo do Brasil (MapBiomas) no dia 29 de agosto de 2019, em Brasília. Com o conjunto de dados de mapeamento lançados pelo MapBiomas, é possível rastrear a ocupação territorial de qualquer lugar do país, ano a ano, desde 1985. A ferramenta utilizada é pública, gratuita e de livre acesso.

“Com os dados anuais do MapBiomas de uso do solo, a gente consegue mapear, por exemplo, as emissões de gases de efeito estufa para todo o país, na área de mudanças de uso da terra. Com esses dados, podemos estimar o quanto existe de áreas em regeneração do Brasil. Foi a primeira vez que se obteve isso”, explica Tasso Azevedo, do Observatório do Clima, coordenador do projeto, que envolve parceiros de diferentes instituições, dentre as quais o Humanize.

“Nós conseguimos gerar cenários para a evolução do uso da terra e de emissões para o Brasil em diferentes recortes territoriais. Os dados também são utilizados para fazer o planejamento das áreas prioritárias para conservação”, diz o coordenador. O Mapbiomas é uma iniciativa que envolve especialistas em biomas, sensoriamento remoto e ciência da computação.

 

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Plataforma do MapBiomas com o território do Brasil e o histórico do uso da terra na região da bacia do Xingu / Reprodução



Os especialistas utilizam o processamento em nuvem e classificadores automatizados a partir da plataforma Google Earth Engine para gerar uma série histórica de mapas anuais de cobertura e uso da terra. São estudados diferentes territórios: Amazônia, Cerrado, Pantanal, Caatinga, Mata Atlântica e Pampa.

Para fazer o mapeamento, as equipes se organizam em times destinados a cada bioma e tema transversal (pastagem, agricultura, zona costeira e área urbana). Eles trabalham em escritórios de várias cidades, como Belém, Recife, Florianópolis, São Paulo, Brasília, Feira de Santana e Porto Alegre. É um trabalho minucioso que conta com a ajuda da tecnologia e a união de propósitos para atingir bons resultados.

Desde o início do projeto, em julho de 2015, foram produzidas seis coleções de mapas do MapBiomas. Eles mostram, em imagens, a evolução do desenvolvimento de uso da terra nas diferentes regiões – o que virou pasto, o que foi transformado em agricultura, o que se encontra “engolido” pelo crescimento urbano. Há filtros que alertam para desmatamento. Um dos propósitos é justamente oferecer uma metodologia rápida, confiável e de baixo custo, com uma excelente capacidade de processamento e um alto grau de automatização de todo o processo.

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Tasso Azevedo, coordenador do MapBiomas: “O objetivo da plataforma é mapear anualmente a cobertura e o uso do solo do Brasil e monitorar as mudanças do território.” / divulgação

 

“São muitas aplicações. A Fiocruz, por exemplo, utiliza as informações geradas pelo Mapbiomas para cruzar com o da morte de macacos infectados pelo vírus da febre amarela – isso permite fazer um planejamento da vacinação”, diz Tasso Azevedo. “Tem ainda a aplicação no monitoramento de fauna da região do Pantanal, e os dados são também utilizados para se fazer o planejamento e a avaliação ambiental estratégica em vários órgãos do governo. A Embrapa, por exemplo, usa para monitorar áreas de pastagem”, complementa.

 

Tecnologia a serviço da informação

Todos os mapas anuais de cobertura e uso do solo do MapBiomas são produzidos a partir da classificação pixel a pixel de imagens de satélites Landsat. Todo o processo é feito com extensivos algoritmos de aprendizagem de máquina (machine learning) através da plataforma Google Earth Engine, que oferece imensa capacidade de processamento na nuvem. O projeto permitiu constatar com alta precisão diversas mudanças no período 1985-2018:

. O Brasil teve perda líquida de 89 milhões de hectares de vegetação nativa, o equivalente a SP, PR, RJ e ES somados (a perda líquida é a perda total com a recuperação subtraída);

. A área de agricultura quase triplicou neste período (cresceu 2,5 vezes), e a área de pecuária cresceu 37%;

. A Mata Atlântica, bioma com 55% da área urbana do país, teve perda líquida de 3 milhões de hectares de vegetação nativa; nos últimos 10 anos a regeneração superou o desmate;

. O bioma que viu a maior proporção de sua área de vegetação nativa sumir foi o Cerrado, com 25% de perda líquida;

. A Amazônia perdeu a maior área (líquida) de floresta no período: 47 milhões de hectares;

. A perda líquida da vegetação nativa dos outros biomas foi: Pampa (18%), Caatinga (13%) e Pantanal (8%).

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Plataforma MapBiomas / reprodução

Os dados e mapas do MapBiomas podem ser baixados diretamente na plataforma. Ao utilizar os dados, o usuário deve certificar-se de que é a última coleção de mapas disponível.